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MENINA PIRATA


Menina-Pirata era uma menina amarelinha que morava em uma comunidade do interior. Ganhou o apelido ainda no primeiro ano do colégio, quando fez uma operação em um hospital público para curar um estrabismo e teve que usar um curativo durante seis meses no olho esquerdo.

Era muito tímida e aquele curativo chamou a atenção da turma para si. No primeiro dia de aula, um colega sentou atrás dela e fez um gancho de papel enrolado que escondeu por dentro da manga do casaco, como se fosse o Capitão-Gancho. Tocou em seu ombro e disse “Não tema menina-pirata, vou te defender”.

Virou para frente e riu sem que ele percebesse. Este episódio serviu para amenizar aqueles dias enfadonhos. Tudo era igual em sua rotina: as reclamações de seu pai sobre o trabalho e a falta de dinheiro, o escapismo e devoção pelas tramas de novela que sua mãe nutria em frente à tevê (única coisa nova daquela casa). E seu irmão que sonhava em ser um jogador famoso e colava fotos futebol pelas paredes sem reboco com os jornais que seu pai recolhia do prédio onde trabalhava.

O banheiro e a fossa nunca ficavam prontos, enquanto iam empurrando a vida com a barriga. Todos os dias às seis e quinze, a menina se dirigia para trás da casa onde ficava uma tábua improvisada formando um deck, debruçado sobre a vala que cortava a comunidade em dois lados: o lado ruim e o lado pior, como ela mesma dizia, ligados por uma pinguela.

Ali ela se acocorava e fazia cocô pontualmente até às seis e vinte e dois ou vinte e cinco no máximo, enquanto lia as notícias do jornal que usaria para se limpar. Gostava de escutar o som de seus dejetos caindo e imaginar se tinham atingido a água, uma garrafa pet ou alguma outra coisa que boiasse sobre a vala.

Tinha tanta expertise, que só pelo barulho sabia o nível de água do dia ou o tipo de objeto que havia acertado. Quando acertava algo grande ficava feliz da vida e sussurrava “bomba!” com a boca cheia saboreando as batidas labiais.


Quando terminava de se limpar e jogava o jornal na vala, pensava que parte dela estava indo embora dali. A professora tinha dito na aula de geografia que todo rio corre para o mar. As vezes perdia alguns minutos comtemplando o horizonte das palafitas indagando que mares seu cocô conheceria.

Alguns anos depois, ela arrancou algumas fotos de jogadores da parede e se limpou com elas. O banheiro ainda não estava pronto. Deixou ali mesmo no chão como quem assina uma carta de despedida. Todos ainda estavam dormindo, menos seu pai que já tinha saído para trabalhar. Bateu a porta devagar e seguiu para além da vala.

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