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POESIA SEM PÉ NEM CABEÇA


Quando a gente começa a falar mal da música de agora e dizer que a de antigamente é que era legal, é sinal que estamos envelhecendo, certo? É vero. Estudos revelam que o ser humano não é lá muito disposto a escutar novidades depois dos trinta. E eu morro de medo de ficar assim. Canso de ver postagens que decretam o fim da música popular brasileira e me arrepio.


Sou cantor e compositor. Não posso perder a esperança. "O novo sempre vem". Feitas estas considerações, proponho a seguinte questão: por que há alguns anos, a mídia nos bombardeia por todos os flancos com uma música robótica, hipnótica e com letras muito pobres? Elementar Cumpadi Washington. Nossa cultura anda tão ordinária porque faz parte de um processo de dominação das massas. Entretenimento é muito diferente de arte. Entreter diverte, tem efeito anestésico. E arte incomoda pacas. Em um país iletrado como o Brasil, onde o livro mais vendido em uma bienal é o da Kéfera (minha filha adora!) e o Jornal Nacional é feito para o Homer Simpson entender (palavras do Bonner), fica muito óbvio que uma simples canção pode ser uma mídia poderosa.


Observem que eu não falei de nenhum gênero específico. Tampouco o empobrecimento das letras do nosso cancioneiro é só um sinal de acesso, escolaridade. Tem dupla sertaneja do Itaim Bibi que nunca montou em um cavalo e teve boa educação. E não, não é classismo, pois o Rap, o Samba e muita música de gueto tem uma lírica que mexe com o corpo e a alma. Movimentam nossa língua e ressignificam nossa cultura.


Os poetas sempre souberam disso. Vinícius, chamado carinhosamente de poetinha por abandonar a formatação clássica e partir para a música popular é um bom exemplo. E nosso solo é profícuo em produzir poetas que se adaptam muito bem ao formato das canções. Nem todo poeta é um letrista e nem todo letrista é um poeta. São linguagens diferentes. Mas por aqui, isso tem dado muito certo. Este fenômeno não é privilégio da música. Ele permeia todas as artes. Fica muito claro quando se liga a TV, ou nos stand ups, nos livros de autoajuda, nas exposições em que as pessoas fazem cara de conteúdo mirando e admirando instalações inconsistentes que fariam Duchamp caetanear “Vocês não entederam nada!”


A depredação dos monumentos de Drummond, Noel Rosa e tantos outros pelo meu Rio de Janeiro, só deixa claro o que há muito tempo assistimos passivos: a destruição da nossa poética. E um povo sem poesia é um povo sem alma.

#Mussa #mussasambacombo #poesia #músicapopularbrasileira

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