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EU NUNCA FUI À DISNEY

O mais próximo que eu já cheguei do mundo de Walt Disney, foi de frente para a tevê em preto e branco, assistindo o Clube do Mickey aos domingos, nos idos de setenta e oito. Tinha uma inveja enorme daquele chapeuzinho com orelhas de rato que as crianças usavam no programa. Todo ano, minha mãe prometia que eu iria viajar na excursão da Stella Barros. Dona Sandra era advogada e só estava à espera de uma causa grande, para arregaçar a boca da baleia! Esse dinheiro não saía nunca. A viagem não chegava. E tome-lhe Parque Shanghai como paliativo (só os crias vão entender a referência). Em oitenta e cinco, finalmente chegou a minha vez! Fomos para o Paraguai comprar muamba. Nossa primeira e única viagem internacional de família. E de ônibus. Por volta dos meus vinte e oito, fui convocado por uma grande rede de tevê, para realizar um trabalho em parceria com um amigo. Fomos contratados para escrever um roteiro de um filme de quinze minutos. A ideia era apresentar aos investidores, um parque temático com os personagens das novelas produzidas por esta empresa. Uma espécie de Disney Tupiniquim. A grana era boa. O trabalho enfadonho, com notas de cafonice, emoldurado por maquetes em computação gráfica. Na terceira reunião, os executivos tinham mexido tanto no roteiro, que nem os pais - no caso nós, os redatores - o reconheceriam.


Vai reunião, vem reunião. Já no décimo encontro, uma das gerentes do projeto, uma tia animada com olhos vidrados, faz a pergunta retórica que seria um divisor de águas daquela empreitada: vocês já foram à Disney, né? Acorde dramático dissonante… "Sim/não!" Respondemos em uníssono. Daí em diante, esta senhora dirigiu a palavra somente ao meu parceiro, autor da resposta positiva. Me tornei invisível para sempre diante dos contratantes e peguei um ranço danado pelo Mickey.


Existem muros sociais. Consegui pular alguns, mas em outros eu quebrei a cara mesmo. Comecei a trabalhar aos quinze, de carteira assinada (os mais novos não saberão o que é). Neste período, eu, meu primo, minha prima, minha tia e meus avós, dividíamos um apartamento de dois quartos e um banheiro, em um condomínio de classe média. Classe média baixa, para ser mais preciso.


Todos nós trabalhávamos. Como quase tudo depende de parâmetro, reparei que eu pertencia a classe média (baixa!), quando entrei para a faculdade. Ali, eu senti o abismo social. Cursei desenho industrial em um bairro nobre da zona sul do Rio. Viva o crédito educativo! Eu era o pobrinho de estimação da galera. Uns me tratavam com curiosidade, outros com estranhamento. Era um desfile de carrões. Quando eu conseguia carona, voltava para casa de Audi. Ao menos, em parte do caminho. Depois, completava o percurso no 702 lotadaço.


Parece que estou reclamando de barriga cheia. Mas a história se passa em mil novecentos e noventa e um. A quantidade de pessoas de baixa renda nas faculdades particulares era quase zero. Ali, pasmem, eu era a cota. Estranha sensação para quem era o riquinho da escola pública.

No primeiro período, tínhamos aulas aos sábados e resolvi ousar. Todo mundo ia de bermuda durante a semana e eu sempre estava com a roupa do trabalho. Qual a graça de sair do ensino médio e não se livrar do uniforme?


Sábado de manhãzinha. Fui para o espelho e disse em tom motivacional "Vai lá moleque. Olha essa bermuda coloridona. Chega atrasado na aula, abre a porta e faz teu nome. A passarela é sua”. Eu era meu próprio coach. Meu personal stylist.


Quando eu cheguei no corredor, já estufei o peito. Inspirei coragem, expirei confiança. Na minha cabeça, eu tava muito play. Abri a porta e um tsunami de gargalhadas engoliu todo o meu ser. Parecia a claque desses programas de comédia. Recolhi o que restou da minha autoestima e fui me sentar lá no fundo da sala. Ainda escutei alguém falar “que bermuda escrota”.


O tempo passou, ganhei um certo dinheiro em publicidade. Fui assistir o Festival de Cannes, no sul da França, a trabalho. Nas horas vagas, rodei pelo que eles chamam de Côte d’azur. Em um desses rolês, curti uma praieira em Antibes e subi para Mônaco. Do meu carro alugado, dei tchauzinho para umas meninas louras com camisa da seleção brasileira e gritei “Brasil”. Elas viraram o rosto. Vai que eu confundi com a camisa da seleção da Suécia. Nada iria me abalar. Até então, eu só tinha Paraguai no passaporte e eu estava soltinho no velho continente com dois amigos tijucanos. Sim, eles estão em todo lugar. Já na entrada do Cassino do principado, uma Ferrari manobrando para estacionar. Um casalzinho de uns dezoito, vinte anos desceu do carro. Ele de smoking, ela de longo, colar e brincos de pérolas. Eu vestia uma bermuda da Synister (bela aquisição da Galeria River), uma camiseta branca da Hering e um par de Havainas brancas.


Me dirigi aos caça níqueis e apostei minha pequena fortuna. Era tudo ou nada. Beijei cada fichinha antes de jogar e entreguei a minha sorte ao destino. Perdi meus três euros e saí com olhar de tédio e postura blasé. O importante é a fleuma e o personagem. Na minha imaginação, eu era só mais um bilionário excêntrico domando o tédio em um final de tarde no Mediterrâneo.


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