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FARINHA POUCA

No táxi, em frente à Clínica São José, no conforto do ar geladinho, observo um homem alto e muito gordo saltar do banco do carona, no carro da frente. Ele corre, desconcertado e nervoso, em direção à clínica. Fico preso nesta cena enquadrada pelos vidros do táxi, que se desenrola como uma história em quadrinhos. Finalmente, posso ver com mais amplitude pela janela da minha lateral. Ele bate no carro que estava entrando na clínica, parado na cancela. Parecia muito nervoso. Arfante, esmurrava o carro e gritava.


Não deu para ouvir direito, mas parecia ter levado uma fechada. Pensei: se eu levo uma fechada de um carro, que logo depois entra em um hospital, perdoo na hora. Vida que segue. Vai que a pessoa está parindo, ou recebeu um telefonema avisando que algum ente querido estava internado. Enfim, é um exercício de alteridade e não de halteres. Logo logo o sinal abriu, o sujeito voltou para o carro e emparelhamos com ele no próximo sinal. Ele discutia com a mulher que dirigia. Janela aberta. Um calor horrendo. Homem infeliz sem ar-condicionado, imaginei.


Outro dia, uma corretora de planos de saúde ligou oferecendo um plano mais barato. Perguntei se ela trabalhava com meu corretor de confiança. Ele tem uma secretária e eu achei que fosse ela. Confirmou e seguimos na troca do produto. Descobri o embrulho, quando fui utilizar o plano e percebi que eu estava na carência novamente. Como assim?! Liguei para o homem soltando os cachorros com quatro, sete, sei lá quantas pedras na mão. Ele esclareceu a situação. Fui enganado. Entrei em contato com a dona que tinha agido de má fé. Ela negou até a morte. Entubei o preju.


Mês passado, olhei para um senhor na beira d’água que passeava com seu pitbull sem coleira na praia de Copacabana. Mirei no cachorro e corrigi o olhar para o dono. Tudo terminaria ali. Mas o cara de uns cinquenta e poucos anos e orelha com sinais de erosão causada pelo tatame, me encarou e chamou para o vale tudo. Ofendeu meus antepassados estufando o peito. Desejei bom dia e continuei minha caminhada. Graças ao bom Deus, o pitbull tinha um jeitão de São Bernardo. Nem latiu. Tava numa onda mais parecida com a minha. Aquele mormaço na mente, a tal preguiça contemplativa.


Sou muito de casa, especificamente da minha rede. Entre um trabalhinho e outro, me estico nela, que já tem até o meu formato. Chamo isso de meditação cabocla. O avô que me criou, era um homem negro e forte, oriundo do interior do Rio. Falava alto. Ariano feroz, parecia estar sempre brigando. Era de vinte e três do século passado. Seu pai, meu bisavô, era filho de escravizados e vivia como meeiro na mesma fazenda onde viveu seu pai, meu tataravô.


Seu Lourival, este avô que foi meu cuidador, repetia umas coisas estranhas, principalmente à noite, quando já tinha bebido algumas. Do café da manhã em seguida, ele ía fazendo uma mistura de cerveja, gin e steinhaeger. Quando a aposentadoria apertou, ficou só na cerveja. Acho que foi por isso que partiu cedo, aos setenta e cinco. Saudades do steinhaeger, que ele chamava de seu remédio. Maldito governo e o arrocho nas aposentadorias.


Mas vamos as tais coisas esquisitas que ele falava e fazia. Quando Cid Moreira, o Bonner de antigamente, dava seu boa noite no Jornal Nacional, meu avô levantava do sofá, esfregava as partes na tela da TV e rosnava “Boa noite é o caralho”. Também gostava de repetir "Você tem perna grossa e orelha mole. Não serve para trabalhar no campo. Nunca seria vendido.” Naquela idade, eu ficava em dúvida se isso era bom ou ruim. Atualmente, eu gosto mesmo é de catar poesia pela rua e trazer para a minha rede, onde balanço e tento arrumar as coisas naquele limite entre o tropeço do sono e o sobressalto da vida. Mas ultimamente tem sido bem difícil.

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