Buscar

MEU BLOCO JÁ PASSOU

Semana passada, um feirante perguntou se eu iria pular o carnaval. Enquanto ele entupia a tapioca de recheio, respondi no automático que o meu bloco já tinha passado. O pessoal em volta riu e por um minuto refleti que eu não gostava da palavra “pular” nesta expressão. Prefiro quando me perguntam onde eu vou "passar" o carnaval. Isso diz muito sobre mim. Pular remete ao frevo, ou aos trios da Bahia. É muita energia para pouca pilha. Gosto mais de praticar o voyeurismo momesco. De preferência parado para ver a moda passar.

Quando criança, minha mãe me fantasiava e me levava à Banda de Ipanema, alguns bailes infantis e à Presidente Vargas para ver a concentração das escolas. Adorava me vestir de índio, mas as penas pinicavam que era uma beleza. Entretanto, o que eu queria mesmo era uma roupa de bate-bola. Nesta época, eu tinha uns seis anos e lembro que o elevador do meu prédio parou e uns três adolescentes entraram e apagaram a luz. Todos com aquela roupa de caveira. Um tecido preto colado ao corpo com um esqueleto estampado em branco. Um clássico do carnaval. Chorei de soluçar e jurei vingança, mas até hoje ainda não comprei minha fantasia de bate-bola (ou de clóvis para alguns).

Atualmente, tenho uma preguiça atroz de me fantasiar, mas na longínqua década de noventa, na tão falada revitalização da Lapa, o pessoal resolveu fazer um bloco com marchinhas antigas. Não mais de cinquenta pessoas com seus instrumentos e fantasias improvisadas. Peguei um vestido e uns brincos da minha avó, uma touca de massagem prateada da minha tia, meu reco-reco e parti para lá. Obviamente ficou aquém do ridículo, mas digamos que nesta época, eu bebia e fumava além do recomendado. Segue o baile sem filtro e o cortejo foi catando gente por onde passava. Do meu lado, uma moradora de rua com um telefone quebrado vendia e comprava ações. O nome do bloco era Boitatá.


De uns anos para cá, sou mais de ir à praia. Se escuto alguma batucada vou lá dar uma conferida e volto para um mergulho. E claro, não perco os desfiles na tevê por nada. Canto no Batuke de Ciata uma semana antes do carnaval e durante o feriadão fico relax total. O único bloco que me tira de casa é o Cordão do Boitatá. Até porque esse negócio de concentração às oito da manhã não dá pra mim.

Neste ano, continuei mantendo minha tradição. Cheguei lá por volta de uma e meia da tarde. Saltei na Carioca e fui andando na contramão da massa. Na Rua da Quitanda encontrei um Preto Velho de bengala, cachimbo, cabelo e barba de talco. Mais a frente, um Tranca Rua comprava uma bebida na banca de jornal e se distraia com as manchetes, enquanto esperava o troco. Do banheiro químico, saiu uma menina com uma bóia de patinho sacolejando ao som de “É só pedir que ela dá” na voz de Rita Benedito. Eu tava em casa.


Atravessei a rua em frente à Assembleia Legislativa e dei de cara com uma engenhoca com uma placa onde se lia "detector de corno”. O gaiato disparou o alarme quando eu passei e eu respondi “não se empolga não que a área de cobertura é grande”. Adiante, em meio ao mundaréu, encontrei o amigo Wilson Guedes virado em seu indefectível Van Gogh e ganhei mais um retrato para a minha coleção. Seguimos com sua irmã, Suely Guedes e sua gangue. Quatro cervejas depois, percebi que meu rosto estava estático, com um sorriso daqueles de morder a orelha. Meus olhos eram dois tracinhos. Esta era a minha máscara de carnaval. Minha fantasia de homem feliz. Alguns minutos que resumiam o meu ideal de nação. Quem me dera o país inteiro congelasse naquele enorme sorriso coletivo que saía do meu rosto e abraçava a multidão.

25 visualizações
  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube
  • Apple Music
  • Deezer
  • Spotify