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MEU CANTO

Eu demorava dias montando esqueleto de dinossauro com gesso, que em seguida era revestido com tripas e carne feitas de massinha de modelar. O sangue de guache vermelho diluído em água era injetado cuidadosamente com uma seringa. Tanto trabalho para depois jogar meu invento de cima do armário. Tudo acompanhado por uma equipe de paramédicos Playmobil. Gostava de ver a fratura exposta, costurar e remendar meu pequeno Frankenstein. Dizia para todos que eu seria um grande cirurgião plástico.


Meu quarto era um estúdio de criação. Meu ídolo era Daniel Azulay, não um cirurgião, mas um artista plástico que ensinava a fazer vários brinquedos em seu programa de tevê. Eu nunca fazia nada proposto, mas entendia que era possível inventar coisas novas a partir de caixas de ovos, embalagens de pasta de dente e outras bugingangas mais. Não tinha muitos brinquedos e, para falar a verdade, gostava mesmo era de construir, desenhar e modelar.


Quando meus primos me visitavam era uma festa. Entre guerras de travesseiro, competição de gaivotas e correrias pela casa, eu arquitetava algumas brincadeiras. Em uma delas, me tornei dono de uma fábrica de cigarros por um dia. Produção em série. Minha prima fazendo o fumo com papel picotado, meu primo enrolando os cigarros com filtro de algodão, enquanto eu criava as embalagens e o logotipo da empresa. Tudo pronto, acendemos o primeiro cigarro. Paulinha tragou, tossiu e escutamos a chave na porta. Jogamos o flagrante pela janela e rogamos ao Todo Poderoso Deus Protetor das Crianças que não fosse o meu avô entrando em casa. Caminhoneiro aposentado com voz de trovão e humor revirado como mar de ressaca. Assim era Seu Lourival. Um homem rude, de bom coração, mas capaz de torcer pescoços quando dominado pela ira. Deus atendeu nossas preces e escutamos a voz da minha avó: que cheiro de queimado é esse meninos?


Tive muitos problemas na escola. Vivia na sala da orientadora educacional, a quem eu chamava carinhosamente de “educacionadora oriental”. Eu sabia que esta inversão trocadilhesca a irritava muito, mesmo assim, sentava de frente para ela, tomava nota no meu caderninho e fazia cara de quem estava analisando algo muito profundo. "Bom dia, Dona Educacionadora Oriental!" "Você sabe que é orientadora educacional que se fala, né? Nós já conversamos que este estojo não é um rádio, não é verdade?” "Claro tia. Ele está cheio de lápis de cor. Quer ver?" “Não, obrigada.” “Câmbio! Câmbio! Enganamos ela mais uma vez”.


Desta maneira, consegui o rebaixamento para o Jardim da Infância e perdi um ano da minha vida. Disseram que eu não tinha maturidade. Falaram também que eu era bem autoritário. Perguntei a minha avó o significado desta palavra e ela me explicou que a educacionadora, ou melhor, orientadora educacional, disse que eu me negava a fazer as atividades propostas em sala de aula. Eles estavam certos. Mas confesso que também foram muito autoritários quando eu fiz um aviãozinho de papel com a prova de português. Na verdade, era um ditado. Tá vendo? Bem ditatoriais.


Ao longo da minha vida, convivi bonito com minha esquisitice, como cantou Mateus Aleluia. Me mudei inúmeras vezes por contingências da vida. Quando se é meio cigano, tem que se adaptar rapidamente aos lugares. Saber quem é quem e principalmente, quem é você. Observar e absorver, como Eduardo Marinho ensinou. Sempre levei este cantinho de criação nas costas como um caramujo e uma certa inadequação na alma. Nunca fui de galera, mas sempre fui das marés. Acostumado à solidão das estepes e camaleônico nos encontros sociais. Acumulei atritos nas ruas, suspensões nas escolas, algumas demissões de empregos e separações em relacionamentos. Mas acreditem, o saldo sempre foi positivo.


Nestes tempos em que a morte passeia nua pelo mundo, montada em seu cavalo, muitos se trancam em suas solidões. Eu escrevo para me aproximar. Daqui do meu canto para algum lugar, eu canto. Não sou do tempo das redes, por isso, lanço meus textos como garrafas ao mar. Não como um pedido de socorro, mas para anunciar que encontrei um tesouro precioso demais: a vida que vivi.

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