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O BOBO DA CORTE NA REPÚBLICA DAS BANANAS

Pela manhã, eu e minha mulher fomos a uma reunião de trabalho em Ipanema. O local era bem próximo à Rua Antônio Parreiras, onde morei na infância. Nasci em São Paulo, no bairro da Aclimação, mas vim para o Rio ainda bebê e vivi ali até os sete anos, quando minha mãe se casou com o meu padrasto Bigode e nos mudamos para Nova Iguaçu. Saindo da reunião, não resisti em dar uma passeada por aquela rua, para ver se tudo ainda estava em seu lugar. Minha mulher não entendeu a volta que demos, pois não fazia sentido algum pegar um táxi tão longe. Mesmo assim, me acompanhou ouvindo minhas histórias. Tá vendo? Eu morava neste prédio. Não tinha grades. Foi aqui, nesta garagem, que eu vendi aquelas revistas em quadrinho que eu mesmo desenhei. Ó! Esse hospital público foi onde eu operei. Setenta e oito. Copa do mundo. Os doentes não deixavam eu ver desenho. Só futebol. E a tevê era minha! Ainda ficaram de olho na minha tia Mônica que foi me visitar. Ah…. Este bar era aquela loja de macumba, onde eu abaixei a calça e mostrei o piru pro dono do estabelecimento que me confundiu com menina. Minha mãe me espancou ali mesmo. Luciana ria das minhas lembranças. Já conhecia todos estes causos e mapeava as cenas em sua mente, conforme eu ia contando. Acho que isso é amor. Nas minhas memórias, as imagens passavam tal qual aquelas máquinas de slides antigos. Amareladas como álbuns de família ou os finais de tarde do Arpoador. Ipanema significa água suja em tupi. Mas o Rio da minha infância era cristalino. Finalzinho de ditadura, desbunde total, os hippies, carnaval. As cores dessa paleta eram mais alegres. Apesar da inflação galopante, desigualdade social e analfabetismo, eu só via vida ao meu redor. Quase todos os dias eu andava sozinho até a praia para encontrar minha avó que fazia ginástica com o Besouro, um salva-vidas que dava aula para o pessoal na areia. Ele tinha dreadlocks e eu ficava imaginando que eu poderia ter um cabelo assim também. Ninguém tinha naquela época. Meu avô, era motorista particular e complementava a aposentadoria com seu fusca, dirigindo para as madames. Um precursor do Uber. Minha mãe me levava no Cantagalo para visitar um amigo que era empregado do mesmo escritório de advocacia em que ela trabalhava. Enquanto eles conversavam, eu ia brincar com um amiguinho dali ou ficava observando as mulheres equilibrando latas d’água na cabeça. O meu apartamento dava de frente para o morro e eu conseguia ver os moleques catando jabuticabas. Nosso vizinho era maconheiro e tinha uma prancha. Eu nem sabia o que era maconheiro, mas minha mãe me advertia para nunca descer ou subir no mesmo elevador que ele. Sua irmã devia ter a minha idade e os dois tinham cabelos grandes e louros, quase brancos. E por falar em cabelo, eu não gostava dos meus. Tinham cor de Fanta Laranja e chamavam muita atenção. A grama do vizinho é sempre mais verde. Em menos de dez minutos, corri neste túnel do tempo como se houvesse luz no final. Não há. Fora do sonho, tudo é pesadelo. Atualmente, além de Ipanema, todas as águas são sujas. Óleo no mar. Amazônia em chamas. A taxa de feminicídio aumentou, o PIB caiu e o dólar dispara. Índios e negros são assassinados à luz do dia. A cidade maravilhosa exporta a milícia, o tráfico e o modelo da teologia da prosperidade, com seus pastores coaches, para o resto do Brasil. Fecham teatros, abrem farmácias. A cloaca do presidente expele palavras podres, com potencial destrutivo de dez mil agrotóxicos. E ele não está sozinho. Há uma legião de asseclas, seguidores e robôs. Todos batendo continência para a bandeira americana, em marcha acelerada para o abismo.


Esta semana, o presidente levou um bobo da corte para oferecer bananas aos jornalistas. A função do humor é desestabilizar o poder e não incensá-lo. Todos sambem. Mas na Terra Plana, tudo é inverso. Obtuso. Achatado. Há uma epidemia de estupidez muito pior que qualquer vírus que venha da China. E hoje, apesar deste cenário, eu voei como o padre do balão e vi tudo mais bonito lá de cima. Dei um Google Earth na minha vida e flanei como um drone nas mãos de uma criança.

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