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RETRATO AOS QUARENTA E OITO

As fotos da minha infância não enchem os dedos das mãos. Registros de adolescência então, nem se fala. Há somente uma que eu tirei em um lambe-lambe da Praça Saens Peña, no outono de oitenta e sete. Observação aos novinhos: procure sobre lambe-lambe na Wikipédia e não no Xvideos. Com uma simples gugada, você descobre que a produção de uma foto três por quatro era uma pequena aventura há alguns anos.


Antes da invenção da máquina fotográfica, a produção de imagens era privilégio da nobreza e mais tarde da burguesia. O sujeito tinha que ter alguma importância na sociedade e alguns dobrões de ouro para encomendar um retrato assinado por algum pintor. Hoje, a criança já faz pose para selfie na primeira ultra.


Uma oferta desmedida de filtros, smartphones, drones, lentes e toda cepa de bugingangas para você registrar sua imagem. É fantástico fotografar e filmar sua vida vinte e quatro horas por dia, colando textos, hashtags, gifs e emojis. Uma herança farta para nossos descendentes ou algum extraterrestre arqueólogo. No futuro, saberão tudo sobre nós. Por outro lado, tanta informação pode acabar não informando nada. Estamos soterrados, fossilizados, camuflados neste mundo virtual comandado por algoritmos.


Eu olho no espelho e não consigo me reconhecer. De repente, eu envelheci e me perdi neste baile caótico de gente feliz correndo atrás de like e visibilidade. Ativistas lacradores, consumidores fervorosos, corpos brilhantes e viajantes gourmets. Eu que sempre fui uma metamorfose ambulante, me deixei levar na correnteza e fui pego nesta rede. Tinha um oceano de possibilidades lá fora, mas preferi o conforto do aquário das telinhas e telões.


Não sou o único. Estamos todos dopados.


Esta semana, um grande radialista e produtor da música popular brasileira, foi demitido sumariamente, aos oitenta anos, em uma rádio controlada pelo governo. Este homem dedicou sua vida à construção da nossa cultura e identidade. Nas redes sociais, um grande alvoroço. No dia marcado para o ato em prol de Adelzon Alves, não mais que cem pessoas. Impressão de uma época, onde as coisas são maximizadas e recebem um verniz atrativo, mas de perto, são bem insípidas. Ao contrário da água que bebemos, dos agrotóxicos que consumimos em nossos pratos ou são pulverizados pela tevê, embalados em música de plástico.


Neste dia cinzento, eu só queria um retrato feliz dos meus quarenta e oito anos, mas saiu assim. Só sei compor em tom menor. Sou de Oxalá regido por Saturno, ascendente em Áries com a lua na malandragem. Nos dias chuvosos, gosto ainda mais da minha casa e tenho preguiça de cozinhar. Entre a zona sul e a zona norte, eu fico na zona de conforto. Às vezes erê, às vezes eremita. Noventa por cento genioso, dez por cento genial.




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