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VIRALIZOU

Quando criança, lembro de participar de um dos famosos vôos de coqueluche promovidos pela FAB. Acreditava-se que a variação de pressão impedia o desenvolvimento do bacilo causador da doença e assim, realizavam vôos com a molecada. Minha mãe não está mais aqui para aferir minhas lembranças, mas foi este o quadro que registrei: uma fila de crianças, Maracanãzinho, homens com roupas verdes e helicópteros. A cena é tão nítida quanto o fato de eu ter me perdido da minha mãe na aterrisagem.

A coqueluche é uma doença que provoca tosses fortíssimas. O auge de incidências é no período da primavera e verão. No passado, quando algo viralizava alguém proferia “é a coqueluche do verão”, apesar de ser uma doença causada por bactéria.

Vírus e bactérias gostam de se espalhar. A palavra vírus significa toxina ou veneno em latim. Muitos cientistas não os consideram seres vivos e sim partículas infecciosas, ao contrário das bactérias, pois algumas fazem bem para o nosso organismo. Lembro do Yakult e seus lactobacilos vivos. Eu chacoalhava bastante para matá-los ou no mínimo, deixá-los tontos antes de ingerir. Vírus são bem menores que as bactérias que medem um milésimo de milímetro. Os maiores vírus são cem vezes menores e precisam de células para multiplicarem. Alguns só atacam plantas, outros animais, seres humanos e até mesmo as bactérias e fungos. Uma vez infiltrados nas células hospedeiras, as reprogramam para que produzam mais partículas infecciosas até explodir. São hackers! Haters do sistema vida.

Desde garoto, vi muita coisa viralizar: ebola, rotavírus, HIV, B17 e agora, o corona. Ideias são como vírus. Elas precisam de uma mente hospedeira para reprogramar e eclodir. Com a comunicação a mil, tudo viraliza muito rápido. Um sujeito com ideias extremistas contrata uma empresa de análise de dados para buscar perfis conservadores no Facebook e infectar ideias supremacistas. E assim, temos Trump, Brexit e por aqui, neste país tropical abençoado por Deus acima de todos, este fenômeno inominável.

Nós, seres nascidos em tempos analógicos, esperávamos meses pela resposta de uma carta. Atualmente, ficamos muito ansiosos se aqueles dois tracinhos do Whatsapp ficam azuis. A velocidade deste mundo líquido é tão avassaladora que eu acho até que ele já evaporou. Vivemos ávidos por novidades, onde um escândalo anula o outro. Ao nos referirmos a um assunto da semana passada, podemos parecer até desatualizados.

Não temos tempo para digerir mais nada. A nossa sociedade está muito doente e as notícias chegam como soro na veia. Temos uma pandemia. Ainda não sabemos como lidar com ela e o nosso presidente que teve contato com pessoas infectadas de sua equipe, aparece para cumprimentar manifestantes que pedem a volta do AI-5, ato institucional que justamente retirava o direito à manifestação.

Em um cenário de cataclisma, insegurança, desemprego e maus tratos constantes ao meio ambiente, me pergunto se ainda há espaço para a arte. Muitas vezes, sinto que a função do artista perde sentido nestes tempos velozes que tudo devoram e nunca saciam. Na Terra há riqueza, alimento e energia para que ninguém mais precise trabalhar para sobreviver e muito menos passar fome. A tecnologia e a ciência oferecem o paraíso terrestre, mas a ganância prefere o inferno.

Faz tempo que o tempo voa e não há espaço para a reflexão exigida pela arte. Só para o entretenimento fugaz. Vez em quando, entre a tosse e um espirro, vem um suspiro de esperança. Um verso de rap, um refrão de samba, algum filme indicado ao Oscar, um mestre de bateria que segura a mão da rainha e a ajuda a se levantar do tombo na avenida, ou até mesmo um simples abraço na televisão. Prosseguimos assim: entre uma alegoria ou outra que esfrega a realidade tão óbvia e aponta para a apoteose apocalíptica que nos espera.

As redes sociais nos deixaram de quarentena faz tempo. Nos agarramos em pequenos sopros de liberdade para continuar sonhando. Os algoritmos ditam o ritmo de nossas vidas. Somos bilhões dominados por poucos bilionários que detém o rumo do planeta. Ou eles tem um plano B, ou todos nós nos encontraremos no mesmo buraco na hora que a vaca for pro brejo.


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